sábado, 31 de janeiro de 2015

Reencontro


O marido disse para sua ex-esposa:

- Maria,
Perder você para morte
seria aceitável.
Perder você por incompatibilidade de gênios
seria tolerável.
Perdê-la para outro
seria decepcionante.
Perder você por falta de amor
seria frustrante.
Mas, perder você para uma casa noturna,
é humilhante.

Ela lhe respondeu:

- José,
Não seria aceitável
se eu morresse antes...
Seria intolerável
Se não tivéssemos nos separados.
Pouco seria,
se eu tivesse tido um amante.
Por isso, fui buscar nos braços da noite,
o brilho que você me tirou.

- Maria,
Não diga tanta besteira.
Quando eu lhe conheci
nosso amor tinha mel.
Nossa vida tinha céu.
Nossa corpo tinha fogo.
Nosso sexo era louco.

- José,
É tarde para voltar atrás.
Nosso romance acabou.
Não sou mais aquela dona-de-casa.
Minha vida é essa.

- Maria,
Não vim aqui pedir perdão,
Nem derramar lágrimas no seu colo.
Por acaso, encontrei-lhe nessa devassidão.
Viva o seu mundo torto.
Esqueça-me!
Nosso passado responde por nós dois.
Aqui, sou apenas um cliente.

- José,
Nem que você fosse o único homem
do mundo, iria lhe querer.
Nem que fosse o mais belo e o mais rico.
Transo com qualquer um, menos você.
Virei meretriz, mas, ainda tenho orgulho.
Por favor, vá embora! Não volte mais aqui.

- Maria,
Também não lhe quero.
Sou um homem de vergolha na cara!
Meu amor por você acabou há tempos.
Nosso amor foi incompleto... Deu no que deu.
Não vou embora, aqui é um bordel.
Não vou querer seus serviços...
Tem a vida que merece.

- José,
Vai pro inferno!
Larga do meu pé.
Você é o culpado dessa desgraça.
Meu abismo foi você.
Agora por favor,
Deixa-me em paz!
Adeus!
Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 12/05/2009
Reeditado em 12/05/2009
Código do texto: T1589328

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Náufrago do amor


          Depois de cinco longos anos de namoro, noivado; marcamos a data do casamento... A felicidade brilhava em nossos corações. Faltavam vinte dias para o grande dia. Eu não via hora de chegar logo... As horas demoravam passar. Era tanto amor, que, ela era o verdadeiro sentido da minha vida.
          Compramos um apartamento em Maringá. Mobiliamos à caráter. Parecia um pedacinho do nosso céu, e era. Era a nossa cara. O nosso mundo estava cercado de estrelas cintilantes. Se o sol nascia, era motivo para brindarmos; se a lua mostrava a sua face, sorríamos; se a chuva molhava nossa cabeça, brincávamos. Parecíamos duas crianças felízes.
          Precisei viajar para Curitiba, e na Serra do Cadiado, uma tempestade me fez perder a direção do meu carro e bati fortemente... Entrei em coma e fiquei afastado do mundo por seis anos.
           Há seis meses retomei minha vida. Como um fênix ressurgi das minhas cinzas... Tive que aprender a me virar sozinho, perdi tudo. Perdi meu céu, acordei da morte e o meu mundo hoje é obscuro, sem futuro.
           Hoje estou aqui no cemitério diante do túmulo da minha amada. Ela não resistiu a um enfarte há dois anos e teve morte súbita. Eu era tão feliz e hoje tudo é pesadelo. Olho sua foto e choro... Nosso destino não estava escrito assim. Algo deu errado. Eu não entendo!
            Vendi o nosso apartamento. Não consigo gostar de mais ninguém. Eu a amava muito. Nosso amor era um conto de fada. Ela foi meu único amor. Ela vive dentro de mim, eu a vejo em todo lugar, ela está em mim e eu nela. Sem ela o mundo não tem graça. O sol perdeu a cor, a lua perdeu a poesia e a chuva são como lágrimas caindo do céu... Tudo acabou.
             Sou o náufrago do amor. Vivo por viver. Perdi o meu amor. Ela estava viva e eu quase morto. Hoje ela está morta e eu quase vivo. O que permanece é o nosso amor. Vou esperar o tempo que for para encontrá-la e poder reviver nosso amor.
               Eu sei que para muita gente, amar assim, não tem graça. Mas nada me faz mudar de idéia. Eu sei que um dia vou reencontrá-la e vamos ser muito felízes. O meu amor é assim, verdadeiro, completo. Uma tragédia não vai tirar de mim o que tenho de mais precioso, o meu sentimento de amor por ela, porque eu a amo. Até breve meu amor!
         
         
Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 27/05/2009
Reeditado em 27/05/2009
Código do texto: T1618053

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Língua de Trapo




          Dona Cigarra estava muito doente e acamada, mas  não via a hora de voltar ao seu posto favorito para ouvir os cochichos, os segredos e as fofocas dos transeuntes que ali  paravam para  um bate-papo. Aquele local estratégico era ponto de encontro. Ela podia ouvi-los, mas ninguém podia vê-la. Ela sabia mais da vida dos outros do que o padre e a Chica do correio.  Entretanto, ficar longe da janela era o seu pior suplício.
       A bicharada, ao tomar conhecimento dos seus ouvidos, entrou em pânico.  Explodiu a síndrome do medo, da culpa.  Muito tititi rolou... Ninguém mais parava naquele confessionário ao ar livre. Mesmo doente, acamada, representava perigo, uma bomba relógio. Todo mundo evitava qualquer conversa fiada.  Seu pseudônimo correu de boca a boca, ganhou inimizades e atravessou fronteiras, e foi cognominada de Língua de Trapo.
       Segredos não eram mais segredos. Vidas estavam em jogo... O fato virou caso de vida ou morte! Era Dona Cigarra um documento secreto que muitos desejavam destruí-lo; era o arquivo vivo que devia ser morto.
         Ao chegar ao conhecimento da população a notícia de que ela sabia demais da vida dos outros, formou-se muita desconfiança entre os casais, parentes, amigos, e essencialmente, políticos.Toda a comunidade falava sobre o assunto. Tinha gente oferecendo muito dinheiro para que ela abrisse a boca...  A curiosidade de alguns e o medo de outros transformaram a cidade em pé de guerra.
        As madrugadas naquela cidadezinha nunca mais foram às mesmas... A insônia tomou conta dos manda-chuvas. Teve colarinho branco que ao saber da enfermidade da fofoqueira, acendeu velas para o chifrudo do inferno e lhe prometeu a vida em troca da morte dela. Outros passaram a assistir à missa assiduamente, fazendo promessas e pedindo para o santo favorito o fim da faladeira. Tremiam ao ouvir o sermão do padre Galo, que dizia:
         - “As paredes  não são surdas. As frestas das janelas  têm olhos  grandes. A justiça tarda mas não falha.”
        E, sempre finalizava o sermão, dizendo:
        - “Aqui se faz, aqui se paga...”.
        Quem “devia no cartório”, saía cabisbaixo, coçando a cabeça, nervoso, intranqüilo. A maioria chegava a errar o caminho de casa. O estresse virou quase uma epidemia.
       Seu Grilo estava morrendo de medo que o seu compadre, Cavalo – o matador – descobrisse o seu romance com dona Égua Mocotó. Seu Cavalo já havia lhe prestado muitos favores, e sempre lhe dizia:
      - Morro de amores pela minha potranca, compadre. Se alguém ao menos atrever-se a olhá-la com segundas intenções, passo fogo, sem dó e sem piedade. Sou ciumento e só de pensar numa coisa dessas, arrepio.
      Ao ouvir isso, seu Grilo morria de medo por dentro, e sempre dava um jeitinho de fugir do assunto e ir embora.
      Dona Mariposa estremecia dos pés à cabeça só de imaginar no escândalo que seria, se o seu segredo fosse descoberto. Bonita, charmosa, bem casada, por onde passava atraía a atenção. Mas, se tornasse público sua verdadeira opção sexual, seria uma tragédia na sua vida, seria abandonada pelo esposo – juiz. Viraria chacota na boca do povo... Apaixonada pela afilhada, a Borboletinha, estava tendo pesadelos toda a noite:  "Via-se enforcada em praça pública sob vaias da multidão."
     Seu Morcego, que nunca gostou de viver zoologicamente correto, conhecido como o vampiro da vila, era cúmplice de seu instinto sangrento. Nunca desejou viver de outra forma. Sem o prazer do sangue, sua vida seria de morte. Seu hobby era se embebedar com o “vermelhinho” das virgens. Disto não abria mão em hipótese alguma. Já havia degustado de todo tipo... Mas era a filha do delegado – a Pachorra – sua paixão.  Este era o seu martírio.
       Seu Crocodilo era o mais preocupado. Estava tendo um caso com a Dona Elefanta. Desse romance nasceu um bastardo... Se o seu melhor amigo descobrisse a tal traição era morte certa!  Não iria sobrar nem pensamento para contar história. Ele fez uma promessa para o Fênix –  o deus imortal da bicharada, e disse-lhe:
      - Se permanecer em secreto o meu segredo, prometo nunca mais “mexer” com a minha amada.  Acenderei duzentas velas todo dia de finado, para todos os santos.
       Seu Pica-pau era famoso por ser bonito, inteligente, rico e bem dotado. Estava sofrendo muito, tinha medo de morrer. Era amante da cunhada. Se o irmão descobrisse, seria o fim...  Doente por sexo, descobriu na cunhada suas fantasias...  Não sabia como parar. Já virara vício.  Não queria perder nem a vida, nem a amante e nem o irmão. Só via um jeito de acabar com o seu sofrimento, era providenciar a queima de arquivo.
       O insuspeito, o santo, o representante de Fênix nessa comunidade era o pedófilo, o sem-vergonha, o tarado que molestava os garotos dentro da sacristia. Assediava as crianças e as conquistava com docinhos, balinhas, promessas inúteis e outras bobagens. Era do tipo que dizia:
       - Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Seu segredo era o mistério que nunca devia ser descoberto de jeito nenhum. Tinha ódio de morte da linguaruda.
          Dona cigarra teve em sonhos a visita do seu santo protetor, o Vaga-Lume, das causas urgentes e quase impossíveis, que lhe disse:
        -Sua cabeça está a prêmio. Sua vida está por um fio de navalha. Seus inimigos querem vê-la morta. Estão fazendo pacto com Fênix e o diabo.
       Em sonhos, fez a seguinte promessa para o santo:
        - Se eu não morrer, nem perder a minha voz, prometo que nunca mais vou ficar na janela ouvindo a conversa dos outros. Serei cega, surda e muda. Serei um túmulo. Tudo que sei, será enterrado junto comigo.
         O santo, saindo de fininho, foi ter com o seu superior, e disse:
        - Ela prometeu não ouvir mais a conversa dos outros, vai ficar de “bico calado”, trancará os segredos no cofre do seu caixão.
       Seu superior disse-lhe:
      - Não acredite... Uma vez linguaruda, sempre linguaruda. Árvore velha, depois que começa cair às folhas, não tem mais cura... A goela da fofoqueira é como uma porta sem chave.
      D. Cigarra acordou, o perigo de morte continuou.
      O anjo dos devaneios, da mitologia zoológica – o Miquinho – resolveu aparecer em sonho para os aflitos; os inimigos da linguaruda, e, para cada um, falou:
       - Desfaça a promessa contra a Dona Cigarra, ela está arrependida.  Prometeu para o seu Anjo nunca mais importunar ninguém. Que de agora em diante será cega, surda e muda; levará os segredos de todo mundo para o túmulo. Reflita comigo: Sem o seu canto afinado esta cidadezinha perderá a graça, será triste, monótona... A vida perderá um encanto.
      Todavia, de nada adiantou a solicitação de Miquinho, sua aparição foi inútil, tarde demais. Um dos aflitos já havia dado cabo à vida da linguaruda. Foi um crime nefasto, mitológico. Fez o serviço profissionalmente, sem deixar vestígios. Arrependimento?  Hum!... Nem pensar! Quando veio a público o seu falecimento, foi um alívio para o time dos perturbados. O criminoso estava orgulhoso consigo mesmo, pois agora poderia viver em paz com a amante e o irmão.
       No velório, o coro de lamentação era um só: Coitadinha! Era tão boazinha! Pobrezinha!
       O cientista maluco – seu Gambá – queria lhe tirar a língua para clonar... E extrair do seu DNA os segredos misteriosos e desvendar quem foi o criminoso.
       Dona Vespa, ao pé do ouvido do seu Sabiá, dizia:
       - Um velório, dois caixões e um corpo. Não é esquisito, compadre?
       Ele respondeu-lhe baixinho:
       - Não!... Um é para o corpo desengonçado  e o outro é para a  língua ferina.
      Dona Vespa adiantou-se, dizendo:
      - Bem que a avisei que, quem fala demais dá bom-dia a cavalo!  No entanto, ela sempre debochou de mim, ignorava-me e dizia:
     - Você tá mortinha de inveja, de curiosidade, mas não vou lhe dizer nada, não; nadinha mesmo.
     E, acrescentou:  Se ela não escutasse os segredos, morreria de tédio... A sua alegria era saber da vida dos outros."
     Seu Sabiá finalizou, dizendo:
     - Que vá a língua e fique a  lição, não é comadre?

Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 31/07/2009
Reeditado em 31/07/2009
Código do texto: T1730310

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O Tocador de Sanfona


              Zangado, endividado e desempregado, Juvêncio, o Tocador de Sanfona estava de mal a pior.
              No sábado, ao meio-dia, sua esposa lhe perguntou:
             - Você não pegou nem um arrasta-pé para tocar hoje?
              O marido enfurecido lhe respondeu:
              - Não! Parece que ninguém mais quer me contratar.
              Dona Joaquina, a esposa brava, disse-lhe:
              - Você precisa dar um jeito... Não tem mais nada na despensa. Não sei o que fazer para os meninos comerem.
              O homem bravo, dando socos no ar disse em alto e bom tom:
              - Hoje toco nem que seja no inferno!
              A mulher lhe respondeu com fúria:
              - Desde que você traga dinheiro, pode tocar até para o chifrudo!
              Juvêncio pegou sua sanfona e saiu a pé, sem destino... Andou muito e já de noitinha, cansado, descorçoado, sentou-se diante de uma árvore frondosa. Sem querer cochilou, tirou uma soneca, e só acordou com o chamado de alguém:
              - Oi, Tocador de Sanfona, acorda! Aonde você vai tocar hoje?!
              - Moço, eu to sem rumo, não tem um lugar certo, não! A coisa ta feia, faz tempo que não toco em lugar nenhum.
              - Então achei o homem certo! Monta no meu cavalo branco e vamos que, estamos precisando de um tocador de sanfona lá no meu terreiro.
              Juvêncio ao subir, o cavalo branco partiu em disparada, e, como uma bola de fogo desapareceu naquela imensidão.
              Meio zonzo, o Tocador de Sanfona, num piscar de olhos, apareceu no palco daquele imenso salão de festa e viu muita gente conhecida ali... Ficou confuso pois todos já haviam falecidos. Observou também gente esquisita, estranha e de todas as idades.
              Seu Chico, um velho amigo, aproximou-se dele, e lhe perguntou:
              - Até você, Tocador de Sanfona!... Bateu as botas do quê?
              O Tocador de Sanfona ficou meio sem graça, porque se lembrou que havia ido ao velório do seu Chico e disse-lhe:
              - Seu Chico, o senhor não tinha morrido?!
              - Morri sim! Mas essa história é longa... Toca logo esse baile antes que o povo faça uma revolução aqui dentro.
              O seu Juvêncio, simples que era, pegou sua sanfona e tocou aquele baile à noite todinha.
              Ao terminar o baile, um homem vestido completamente de roupa vermelha, apareceu-lhe, deu-lhe um envelope fechado e disse-lhe:
              - Tocador igual a você, aqui no inferno nunca tinha aparecido ainda. Tomara que morra logo para vir pra cá nos alegrar com sua sanfona.
              O Tocador respondeu na bucha:
              - Ta louco homem! Sou do bem, sou filho de Deus!
              O homem de vermelho, enfurecido, respondeu-lhe:
              - Pode ser, mas eu estou de olho na sua alma!
              Seu Juvêncio lhe disse:
              - Que brincadeira macabra é essa?! Sai de mim espírito de belzebu!
              O capeta lhe respondeu:
              - Eu sou o próprio... Pega seu dinheiro e vá logo, antes que eu me arrependa e lhe segure aqui antes do seu tempo.
              O enviado do Diabo colocou o Tocador na garupa do cavalo e lhe disse:
              - Tocador, aqui é o inferno! Aquele que você conversou ainda a pouco é o Satanás, o dono do mal. Não brinca com ele não, cara, você é doido!
              - E, você quem é?
              - Eu sou um desgraçado que em vida só fiz maldade e vim parar nesse fim do mundo, no inferno... Só teve essa festa aqui, hoje, porque o Capeta está de olho em toda sua família. Ele lhe trouxe aqui para lhe enganar, para você pensar que aqui é bom... Mas aqui é só dor e sofrimento. Toda vez que alguém lembra seu nome, lá na terra, Ele nos faz reverenciá-lo... Ele quer ser deus também... Ele é o deus do mal. Cuide-se antes que venha parar aqui também! Quando você falou que tocaria, nem que fosse no inferno, o Diabo estremeceu de alegria e loucura, por isso, lhe apareceu.
              Seu Juvêncio, quando foi lhe indagar, percebeu que estava sozinho debaixo daquela árvore frondosa e balançou a cabeça, pensado ter tido um pesadelo... Mas, ao se levantar, percebeu um envelope perto de sua sanfona e o pegou e partiu para sua casa.
              Ao chegar à sua casa, chamou a mulher e lhe disse:
              - Aí está o dinheiro que você queria. Pegue-o. Este foi ganho lá no inferno!
              Dona Joaquina respondeu-lhe:
              - Deixa de besteira homem! Dinheiro é dinheiro. Sem grana não se paga à água, a luz, a compra, etc. O importante é tê-lo, não me importa de onde vem. Esses locais de bailes virou um inferninho mesmo...
              Ele contou toda a história para mulher e lhe disse que havia conversado com o próprio Capeta e que viu seu Chico lá também... Que o Chifrudo estava de olho em sua família.
              Ela lhe respondeu que dinheiro é tudo igual e que iria gastá-lo da melhor forma possível. Ela disse que agora estava se sentindo gente de novo, etc.
              Seu Juvêncio lhe disse nervoso: “Vamos queimar esse dinheiro sujo, mulher!”.
              - Ta louco Juvêncio! Imagina que vou fazer uma bobagem dessas.
              - Olha mulher, antes de vir com esse dinheiro pra cá, eu me pus de joelhos e pedi perdão para Deus, nunca mais vou falar o que falei ontem: “Que tocaria nem que fosse no inferno.” Deus vai me ajudar para que isso nunca mais me aconteça.
              - Ta besta, homem! Ta vendo que eu não vou queimar esse dinheiro. Você tocou no inferno e foi pago pelos seus serviços. Agora vou pagar as contas e fazer compras, antes que nossa vida vire o inferno.
              Dona Joaquina se produziu toda e foi para a rua com a grana fazer o que tinha que ser feito.
              Seu Juvêncio pegou no sono e teve um sonho: “No sonho um anjo lhe tirava de dentro de um caixão preto e no seu lugar colocava sua mulher.”.
              Ao chegar à sua casa, a mulher feliz da vida, disse ao marido:
              - Agora somos gente de novo, temos crédito em todo lugar.
               Seu Juvêncio meio sem graça lhe contou o sonho que tivera há pouco...
               Ela lhe respondeu enfurecidamente:
              - Você está muito medroso Juvêncio, ta um verdadeiro CAGÃO, ta morrendo de medo à-toa... Larga de ser besta homem, pelo amor de Deus!
              Ao cair à madrugada, Dona Joaquina sofreu um enfarte fulminante e teve morte súbita.
              O bicho-homem do cavalo branco apareceu, pegou o corpo, colocou-o em sua garupa e desapareceu.

             
                                               
Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 27/10/2009
Reeditado em 27/10/2009
Código do texto: T1889178

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O pelado



        A mulher se viu aflita. Bem na hora do almoço apareceu a parentada rica, e ela sem jeito e quietinha, solicitou ao seu esposo que corresse ao supermercado e lhe trouxesse carne moída para preparar o seu prato especial, o hit, para os hóspedes inesperados. O marido saiu numa pressa tão grande que esqueceu de colocar a calça. E na rua, todo mundo a via correndo e pensava que se tratava de um ladrão, um louco, um estuprador, e, não tardou e apareceu expressamente a sirene da polícia.
Ele adentrou o supermercado como um tsunami e não se deu conta da perseguição policial. Foi direto para o açougue, e ofegante gritou: “Quero dois quilos de carne moída, agora, urgente?!”. Mal ergueu a voz e os policiais lhe deram voz de prisão: “Levante as mãos, você está preso!”. Mas, de costas, nem imaginou que se tratava dele, e ouviu uma senhora idosa que estava na fila, logo atrás, lhe dizer: “Isso é uma vergonha! O cara vem do jeito que veio ao mundo ao Supermercado comprar carne! Ah meu Deus, que bunda mais feia e estrienta!”. Ele respondeu: “Nossa, esse cara além de sem-vergonha é horrível mesmo!”.
     Antes que fechasse a boca, um dos policiais lhe segurou por trás, puxou-lhe os braços e o algemou. Ele gritou: “Está me machucando! O que foi que eu fiz pra me tratar assim, como um animal?!”. O policial lhe disse: “Você está preso!”... Joaquim lhe disse, imediatamente: “Mas, que diabos de crime eu cometi?”. O policial, de supetão, pensou que estava diante de um louco, e lhe disse: “O Senhor por acaso tem problema mental?... Está sem calça, peladão!... E, ainda, me pergunta que crime cometeu? O senhor está bem encrencado... seu advogado vai ter um problemão!”.
     O pobre coitado, Joaquim, recobra a consciência, procura a sua calça, e nada... percebe que de fato está nu, e grita: “Aí meu Deus, tô frito!”. O policial, o baixinho, o conhecia de vista e, notou que se tratava de um senhor de boa índole e o levou logo à viatura. Até chegar à viatura, alguns curiosos lhe proferiram palavras de baixo calão... algumas senhoras e moças ao verem assim, peladão, fechavam um olho e deixavam o outro aberto... balançavam a cabeça e falavam baixinho: “Esse é um canalha, devasso mesmo!”.
     Notícia ruim chega a galope! Sua esposa, apavorada, fez de tudo para que sua parentela não ouvisse os cochichos e os boatos que vinham da boca da rua. Tratou de dar um jeito, e escapou pelas portas dos fundos e foi à delegacia. Ao chegar lá, disse ao delegado o ocorrido... e o homem da lei comovido com a sua história, disse-lhe: “Dona Justina, vou soltá-lo, mas, vou lá à sua casa comer o seu hit que é muito famoso por aqui também... Pode ser?”.  Ela balançou a cabeça positivamente...  Tinha levado uma calça para o marido. Viu-o morto de vergonha, e lhe disse: “Calma homem, lá em casa ninguém sabe nada, vamos logo!... Vamos passar no açougue do Branco, que, a panela está no fogo no ponto do hit e, agora, tenho que aumentar o feijão porque o delegado vai almoçar lá também”.
     Apesar de todo esse embaraço, a esposa rindo, disse ao marido: “Você acabou com a minha raça... Eu sempre bati o maior papo lá no salão da Beth... Agora, tô frita!”. Joaquim entendeu bem o que ela quis lhe dizer, e respondeu: “Larga de ser besta mulher! Nem tudo o que é grande é bom, mas tudo o que é bom é grande...”.

Professor Osmar Fernandes
Em 30/05/2010
Código do texto: T2288858
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Cafezinho das três no cemitério



          Três horas da tarde, sol ardente. Hora sagrada do cafezinho dos quatro coveiros, que, sentados em um túmulo, contavam histórias de arrepiar.
          De repente, o sol se põe. O tempo obscureceu. Começou a trovejar. O céu anunciou chuva, vento forte, temporal. Amedrontados, perceberam que isso só estava acontecendo dentro das limitações geográficas do cemitério. Foi coveiro correndo pra todo lado.
          Nesse momento tremularam catacumbas, túmulos, covas abertas, etc. As folhas das árvores choveram sobre o cemitério. Ninguém enxergava mais nada.
          Um dos coveiros, espantado, notou que o portão grande do cemitério ora abria, ora fechava, e batia uma parte na outra assustadoramente. Parecia o badalo do sino de Deus anunciando o fim do mundo. De súbito, observou uma silhueta vultosa, esbranquiçada, tentando se esconder da tempestade. Não compreendendo o mistério e tremendo de medo, de sua boca ecoou um grito pavoroso, dizendo: "É alma penada! É bicho feio! Valha-me Deus!" Começara a rezar para São Miguel Arcanjo (A Oração contra as ciladas do demônio).
          Nos outros coveiros viam-se apenas seus olhos esbugalhados, fitando aquela coisa estranha que parecia bicho de outro mundo.
          Um dos coveiros tenso, pasmo, seguiu com os olhos aquela “coisa”, que flutuava perdidamente, em ziguezague, em busca de abrigo. Estava morrendo de medo...
          Outro, apesar do momento esquisito e do ser fantasmagórico, só pensava nos túmulos que já tinham sido saqueados. Imaginava que se tratava de mais um vândalo ou de um ladrão, tentando assustá-los. Outro dia mesmo dera falta das inscrições douradas, prateadas, de muitos jazigos. Os parentes das vítimas exigiram das autoridades, justiça. Dias atrás tinha flagrado um idiota defecando em cima de um túmulo. Ao pegá-lo, lhe dera uns safanões, pontapés – este nunca mais se atreveu a importunar o sono sagrado dos mortos.
           O instante era de apreensão, medo, nervosismo. A ventania não parava. Aquela “coisa” esvoaçava como assombração peregrina. E de repente, sumira.
          Um coveiro que não a perdera de vista, foi ao seu encontro. Para sua surpresa se viu diante de um vulto mágico dentro duma cova, levitando. (Aquela cova aberta estava pronta para receber seu ilustre morador, que já estava a caminho.) Assustado, o coveiro chamou um dos colegas, que ao se aproximar, deparou-se com aquela “coisa” dentro da cova. Foi tomado por uma síncope descomunal... Ao sentir-se vivo novamente, tratou de abandonar seu companheiro, seus pertences e deitou o cabelo.
          Outro coveiro vendo aquela cena, aproximou-se, e ao ver aquilo, gritou: Sangue de Cristo tem poder! Isso é alma penada mesmo! Minha Nossa Senhora da Boa Morte! Saiu em disparada com as mãos à cabeça, tropeçando, caindo, se levantando, e aos berros dizia: Deus me livre! É o fim dos tempos! Socorro!
          O coveiro, o corajoso, que olhava a “coisa” resolveu lhe perguntar de supetão: - Que faz aí dentro dessa cova que não lhe pertence?
          "A coisa” com uma voz trêmula do além, lhe respondeu sem pestanejar: - Vocês não me deixam em paz. Sentam em cima de mim contando histórias cabeludas, mentirosas; e ainda por cima, sujam meu túmulo com farelo de pão, de bolacha, café.
          O coveiro, o corajoso, então lhe disse: - Vou chamar o padre para lhe dar a estrema-unção. Você não diz coisa com coisa. Está louca! Tá na ânsia da morte.
          E a “coisa” ali, como alma penada que era, engoliu a língua por uns segundos... E lhe respondeu: - Não precisa! Já tô morto há muito tempo. Não tá me conhecendo? Sou o Luiz. Você que me sepultou. Não se Lembra de mim, Roberval?
          O coveiro perturbado pensou: "Santo Deus, isso não tá acontecendo comigo! Vou buscar água benta e vou jogar em cima desta coisa esquisita. Será que é o Luiz mesmo..."
          A “Coisa” lhe respondeu aborrecida: - Claro que sou o Luiz!... Você e os seus colegas estão usando meu túmulo como cozinha de cemitério. Não façam mais isso. Deixem-me descansar em paz. Quero ter o sono eterno que mereço.
          E, falando isso, a alma penada elevou seu espírito até seu túmulo que se abriu sozinho...  Ao adentrá-lo, disse: "Dêem-me paz!"  Ao repousar, fechou-se o túmulo, e misteriosamente, o temporal cessou.
          Os coveiros do cemitério ficaram extáticos ao ver aquela alma se refugiar. Roberval comentou com os demais colegas de serviço o pedido que o Luiz lhe fizera...  Prometeram que nunca mais usariam túmulos para tomar o costumeiro cafezinho das três.
          Contam essa história para todos os visitantes, e  lhes pedem encarecidamente, para que não sujem o cemitério, e mantenham limpos os túmulos dos seus entes queridos.
Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 26/02/2009
Reeditado em 05/05/2009
Código do texto: T1457860

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O Repórter de São Pedro




Não perdia um velório. Era figurinha carimbada em todos daquela região metropolitana. Entusiasmado pelo clima fúnebre, anotava todo o acontecimento em sua caderneta. Sujeito excêntrico, sem amigos; gostava do que fazia. Chamava a atenção pelo seu trejeito e pelo traje que usava: uma túnica de cor branca, um cinto de pano vermelho amarrado em sua cintura e calçando uma alpargata desgastada e marrom.

Seu Leleco, que já o tinha visto em vários velórios, intrigado, aproximou-se, e, no pé do seu ouvido, perguntou:

- O senhor é parente do defunto?

O homem lhe respondeu, indiferente:

- Não é da sua conta!

Seu Leleco, irritado, então, disse:

- O senhor é muito mal-educado! Só estou lhe perguntando por que já o vi em muitos velórios. Sempre vestido desse jeito, esquisito, com esse livrinho relatando não sei o quê; e com esses gestos inquietantes... Desse jeito o senhor incomoda todo o mundo. Chama mais atenção que o defunto. O senhor por acaso é policial, agente funeral ou agente de seguro?

O homem, franzindo a testa, respondeu imediatamente:

- Não sou nem uma coisa, nem outra.

Seu Leleco insistiu e perguntou:

- Ah! Então o senhor é amigo, do peito, do Pedro, não é?

O excêntrico lhe respondeu na bucha:

- Do Pedro sim, mas, do defunto não.

Seu Leleco ficou com a resposta engasgada e, irado e meio confuso, persistiu:

- Como assim? Se o Pedro é o defunto e o senhor não é nem parente, nem amigo, então o que faz aqui?

Dessa vez, em tom menos agressivo, o homem de alpargata desgastada, respondeu:

- Não sou nem parente, nem amigo, nem nunca o vi nem mais gordo, nem mais magro em toda a minha vida. Estou aqui a serviço do céu.

Seu Leleco espantado com as respostas do excêntrico, dessa vez quase foi a nocaute, e, encabruado que era, respirou forte, impostou a fala e disse:

- O senhor está delirando. A serviço do céu?! O senhor quer dizer que não é deste mundo?!

O homem de branco percebendo sua gafe, meio desnorteado, fitou-o, e disse:

- Não! Quer dizer, sim!... Já fui há muito tempo atrás. Hoje não pertenço mais a este mundo pecador, violento e desalmado.

De cabelos em pé, parecendo um espantalho, e com “a pulga atrás da orelha”, seu Leleco, trêmulo, mastigando a voz, falou:

- Então quer dizer que o senhor já viveu aqui, morreu, e agora é um espírito. Por isso, faz essas anotações. Pra quem? Por quê?

O homem enfurecido, respondeu:

- Sim! Quer dizer, não!... É isso mesmo! Já vivi aqui, morri, e agora sou o Repórter de São Pedro. Tenho que anotar todo o acontecimento da história do falecido. Desde o seu nascimento ao último instante de vida. Às causas da morte, às lamentações, etc. Tudo o que parecer interessante, curioso ou triste. Tenho que levar o relatório para o secretário de São Pedro, antes que a alma do morto abandone o seu corpo.

Seu Leleco, assustado, e já desconfiado dessa conversa, lhe indagou:

- O senhor está com lorota comigo, está blefando, só pode! Isto é brincadeira de mal gosto. É coisa impossível! Nunca ouvi ninguém dizer nada igual antes. Morto não volta pra contar histórias, nem fazer relatórios... Isso é uma piada mal contada. Nem na Bíblia Sagrada li nada igual. Esse é o maior absurdo que já ouvi em toda a minha vida. Fale que é mentira, pelo amor de Deus?!

O repórter de São Pedro, enfaticamente, respondeu:

- Quem vê demais, ouve demais, nunca mais dorme em paz. Não estou brincando! O senhor está vendo o que realmente é.

Seu Leleco que era manco, angustiado, balançou a cabeça desaprovando aquelas palavras, e replicou dizendo:

- O senhor é muito estranho, não fala coisa com coisa. Se não quer chamar a atenção, venha vestido como todo mundo; seja um de nós, um igual. O diferente atrai naturalmente a curiosidade. Ainda mais em se tratando de um velório... Com uma conversa dessa sem sentido, dizer que é Repórter de São Pedro e que a alma... Que besteira! Que loucura! Nem sei por que estou emprestando os meus ouvidos a tanta asneira.

O repórter de São Pedro, disse:

Já dizia o profeta: “Virá o Senhor daquele servo num dia em que não o espera, e à hora em que ele não sabe.” (MT.24:50). Por isso, estou relatando a despedida do morto e revelando a reação de cada um aqui, inclusive a sua. Ser ou não ser diferente não é o caso. O caso é tão somente transmitir o acontecimento para a minha agenda e endereçá-la para o meu superior. Nunca gostei de "aparecer" quando era vivo nem mesmo nas comemorações dos meus aniversários. Afirmo que, somente o senhor está me vendo. Não sei o porquê, mas só o senhor pode me ver.

Engasgando-se nas próprias salivas, seu Leleco arregalando seus olhos negros, surpreso, indagou-o:

- Puxa! Então o senhor é um anjo do céu mesmo? É aquele que veio buscar a alma do morto?!

O repórter de São Pedro, respirou, e disse:

- Não. Ainda não conquistei esse poder tão miraculoso. Quando olho ao páramo e o vejo tão lindo, entendo o poder de Deus. Estou trabalhando para que um dia eu possa alcançar esse objetivo. Estou numa dimensão divina ainda inferior a isso... Mas desejo a purificação total. Fiz boas obras aqui na terra. Mas, adentrar a porta do céu é muito difícil, ela é muito estreita. Entrar na fila já é uma benção, ser escolhido, é quase impossível... Depende muito da alma de cada um. "Cada um vai colher o que plantou na terra."

Nesse momento seu Leleco silenciou-se... E sua consciência lhe confidenciou: “Este homem não é doido. É um sábio ou um profeta, ou um santo; mas, doido não é.” E perguntou:

- Tira-me uma dúvida: como São Pedro pode ter o relatório de todos os defuntos do mundo? Afinal, são milhares por dia, não é? Morremos de tantas formas: de doenças, de fatalidades, de balas perdidas; e de tantas guerras: a da fome, a da frustração, a da ignorância, a do tráfico de drogas, a do trânsito e a de guerras de nação contra nação, enfim, são tantas formas de morrer por dia, como enumerá-las, registrá-las?

O repórter lhe respondeu, dizendo:

- O senhor tem toda a razão, não sou doido. Faço parte da O.N.E.C. – Organização Não Espiritual do Céu. Sou um voluntário a serviço de São Pedro. Todo voluntário, seja na terra ou no céu é bem visto aos olhos de Deus. Por isso, em cada velório, chovem candidatos. Para cada morto disputam no mínimo sete candidatos e mais um instrutor e dois ajudantes. Um anjo só vem fazer este serviço quando se trata de um espírito superior... Quando o caso é especialíssimo.

Seu Leleco, curioso que era, perguntou:

- Mas, o que o voluntário e o morto ganham com isso?

O repórter, enfaticamente, respondeu:

- Cada um ganha o que merece. O voluntário recebe uma espécie de bonificação dos pecados. O morto, através deste dossiê que é uma espécie de folha corrida, ganhará ou não uma senha para entrar na fila da porta do céu.

Seu Leleco enrugou a testa e disse:

- Mas, além do homem “bater as botas” ainda vai ter que passar por essa peneira. Coitado! O senhor não acha que todo o pobre deveria ir direto para o céu sem passar por esse vexame?

O repórter entendendo a simplicidade e a ignorância do seu Leleco, disse:

- Cada alma será julgada de acordo com o que semeou na terra. Afirmo para o senhor que felizes são aqueles que têm a chance de irem para a fila de São Pedro. Muitos desejam isso, mas, poucos conseguem entrar na fila. Somente os escolhidos a dedo conquistam esse direito. Nesse caso, não conta a questão financeira, política, bens materiais, etc. O que conta é o que foi o coração da pessoa, bom ou mal.

Seu Leleco, de supetão, perguntou ao repórter:

- O senhor lê o pensamento de todo mundo?

O homem do além, meio encabulado, pego de surpresa respondeu:

- Não. Nem sempre. Faço isso somente quando tenho a permissão do meu superior.

Aproveitando a oportunidade seu Leleco perguntou:

- Dói morrer ou a passagem dói muito mais?

O repórter de São Pedro disse categoricamente:

- Dói muito. Mas, triste mesmo é assistir ao sofrimento dos que ficam perfilados na rua do inferno, chorando, clamando perdão tardiamente... Essa é a pior dor, é dor infinita. A passagem é como uma viagem virtual, como um passeio... Ao despertar, vai conhecer a sua fila. "Ali começa o céu ou o inferno."

Seu Leleco impressionado com essa resposta pensou: "Vou procurar uma igreja hoje mesmo. Vou buscar a palavra de Deus para ser a minha luz, o meu guia e minha salvação; antes que seja tarde demais.

O repórter de São Pedro terminando o seu trabalho disse para o seu Leleco:

- "O corpo morto ficará no esquecimento. Na sepultura não terá momento. Não fará mais obras, nem indústrias, nem ciência, nem coisa alguma, porque não será mais existência. Tornar-se-á pó... Sua sorte estará lançada. Sua alma é que será julgada conforme sua atitude durante toda a sua vida. Que os vivos sejam inteligentes, porque é melhor ser um cão vivo do que um leão morto."

E, falando isso, desapareceu.

Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 24/02/2009
Reeditado em 09/07/2009
Código do texto: T1454633

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