sábado, 31 de janeiro de 2015

O Repórter de São Pedro




          Não perdia um velório. Era figurinha carimbada em todos daquela região metropolitana. Entusiasmado pelo clima fúnebre, anotava todo o acontecimento em sua caderneta. Sujeito excêntrico, sem amigos; gostava do que fazia. Chamava a atenção pelo seu trejeito e pelo traje que usava: uma túnica de cor branca, um cinto de pano vermelho amarrado em sua cintura e calçando uma alpargata desgastada e marrom.
          Seu Leleco, que já o tinha visto em vários velórios, intrigado, aproximou-se, e, no pé do seu ouvido, perguntou:
          - O senhor é parente do defunto?
          O homem lhe respondeu, indiferente:
           - Não é da sua conta!
           Seu Leleco, irritado, então, disse:
           - O senhor é muito mal-educado! Só estou lhe perguntando por que já o vi em muitos velórios. Sempre vestido desse jeito, esquisito, com esse livrinho relatando não sei o quê; e com esses gestos inquietantes... Desse jeito o senhor incomoda todo o mundo. Chama mais atenção que o defunto. O senhor por acaso é policial, agente funeral ou agente de seguro?
           O homem, franzindo a testa, respondeu imediatamente:
           - Não sou nem uma coisa, nem outra.
           Seu Leleco insistiu e perguntou:
           - Ah! Então o senhor é amigo, do peito, do Pedro, não é?
           O excêntrico lhe respondeu na bucha:
           - Do Pedro sim, mas, do defunto não.
           Seu Leleco ficou com a resposta engasgada e, irado e meio confuso, persistiu:
           - Como assim? Se o Pedro é o defunto e o senhor não é nem parente, nem amigo, então o que faz aqui?
           Dessa vez, em tom menos agressivo, o homem de alpargata desgastada, respondeu:
           - Não sou nem parente, nem amigo, nem nunca o vi nem mais gordo, nem mais magro em toda a minha vida. Estou aqui a serviço do céu.
            Seu Leleco espantado com as respostas do excêntrico, dessa vez quase foi a nocaute, e, encabruado que era, respirou forte, impostou a fala e disse:
            - O senhor está delirando. A serviço do céu?! O senhor quer dizer que não é deste mundo?!
            O homem de branco percebendo sua gafe, meio desnorteado, fitou-o, e disse:
            - Não! Quer dizer, sim!... Já fui há muito tempo atrás. Hoje não pertenço mais a este mundo pecador, violento e desalmado.
            De cabelos em pé, parecendo um espantalho, e com “a pulga atrás da orelha”, seu Leleco, trêmulo, mastigando a voz, falou:
          - Então quer dizer que o senhor já viveu aqui, morreu, e agora é um espírito. Por isso, faz essas anotações. Pra quem? Por quê?
          O homem enfurecido, respondeu:
          - Sim! Quer dizer, não!... É isso mesmo! Já vivi aqui, morri, e agora sou o Repórter de São Pedro. Tenho que anotar todo o acontecimento da história do falecido. Desde o seu nascimento ao último instante de vida. Às causas da morte, às lamentações, etc. Tudo o que parecer interessante, curioso ou triste. Tenho que levar o relatório para o secretário de São Pedro, antes que a alma do morto abandone o seu corpo.
          Seu Leleco, assustado, e já desconfiado dessa conversa, lhe indagou:
          - O senhor está com lorota comigo, está blefando, só pode! Isto é brincadeira de mal gosto. É coisa impossível! Nunca ouvi ninguém dizer nada igual antes. Morto não volta pra contar histórias, nem fazer relatórios... Isso é uma piada mal contada. Nem na Bíblia Sagrada li nada igual. Esse é o maior absurdo que já ouvi em toda a minha vida. Fale que é mentira, pelo amor de Deus?!
          O repórter de São Pedro, enfaticamente, respondeu:
          - Quem vê demais, ouve demais, nunca mais dorme em paz. Não estou brincando! O senhor está vendo o que realmente é.
          Seu Leleco que era manco, angustiado, balançou a cabeça desaprovando aquelas palavras, e replicou dizendo:
          - O senhor é muito estranho, não fala coisa com coisa. Se não quer chamar a atenção, venha vestido como todo mundo; seja um de nós, um igual. O diferente atrai naturalmente a curiosidade. Ainda mais em se tratando de um velório... Com uma conversa dessa sem sentido, dizer que é Repórter de São Pedro e que a alma... Que besteira! Que loucura! Nem sei por que estou emprestando os meus ouvidos a tanta asneira.
          O repórter de São Pedro, disse:
          Já dizia o profeta: “Virá o Senhor daquele servo num dia em que não o espera, e à hora em que ele não sabe.” (MT.24:50). Por isso, estou relatando a despedida do morto e revelando a reação de cada um aqui, inclusive a sua. Ser ou não ser diferente não é o caso. O caso é tão somente transmitir o acontecimento para a minha agenda e endereçá-la para o meu superior. Nunca gostei de "aparecer" quando era vivo nem mesmo nas comemorações dos meus aniversários. Afirmo que, somente o senhor está me vendo. Não sei o porquê, mas só o senhor pode me ver.
          Engasgando-se nas próprias salivas, seu Leleco arregalando seus olhos negros, surpreso, indagou-o:
          - Puxa! Então o senhor é um anjo do céu mesmo? É aquele que veio buscar a alma do morto?!
          O repórter de São Pedro, respirou, e disse:
          - Não. Ainda não conquistei esse poder tão miraculoso. Quando olho ao páramo e o vejo tão lindo, entendo o poder de Deus. Estou trabalhando para que um dia eu possa alcançar esse objetivo. Estou numa dimensão divina ainda inferior a isso... Mas desejo a purificação total. Fiz boas obras aqui na terra. Mas, adentrar a porta do céu é muito difícil, ela é muito estreita. Entrar na fila já é uma benção, ser escolhido, é quase impossível... Depende muito da alma de cada um. "Cada um vai colher o que plantou na terra."
          Nesse momento seu Leleco silenciou-se... E sua consciência lhe confidenciou: “Este homem não é doido. É um sábio ou um profeta, ou um santo; mas, doido não é.” E perguntou:
          - Tira-me uma dúvida: como São Pedro pode ter o relatório de todos os defuntos do mundo? Afinal, são milhares por dia, não é? Morremos de tantas formas: de doenças, de fatalidades, de balas perdidas; e de tantas guerras: a da fome, a da frustração, a da ignorância, a do tráfico de drogas, a do trânsito e a de guerras de nação contra nação, enfim, são tantas formas de morrer por dia, como enumerá-las, registrá-las?
          O repórter lhe respondeu, dizendo:
          - O senhor tem toda a razão, não sou doido. Faço parte da O.N.E.C. – Organização Não Espiritual do Céu. Sou um voluntário a serviço de São Pedro. Todo voluntário, seja na terra ou no céu é bem visto aos olhos de Deus. Por isso, em cada velório, chovem candidatos. Para cada morto disputam no mínimo sete candidatos e mais um instrutor e dois ajudantes. Um anjo só vem fazer este serviço quando se trata de um espírito superior... Quando o caso é especialíssimo.
          Seu Leleco, curioso que era, perguntou:
          - Mas, o que o voluntário e o morto ganham com isso?
          O repórter, enfaticamente, respondeu:
          - Cada um ganha o que merece. O voluntário recebe uma espécie de bonificação dos pecados. O morto, através deste dossiê que é uma espécie de folha corrida, ganhará ou não uma senha para entrar na fila da porta do céu.
          Seu Leleco enrugou a testa e disse:
          - Mas, além do homem “bater as botas” ainda vai ter que passar por essa peneira. Coitado! O senhor não acha que todo o pobre deveria ir direto para o céu sem passar por esse vexame?
          O repórter entendendo a simplicidade e a ignorância do seu Leleco, disse:
          - Cada alma será julgada de acordo com o que semeou na terra. Afirmo para o senhor que felizes são aqueles que têm a chance de irem para a fila de São Pedro. Muitos desejam isso, mas, poucos conseguem entrar na fila.  Somente os escolhidos a dedo conquistam esse direito. Nesse caso, não conta a questão financeira, política, bens materiais, etc. O que conta é o que foi o coração da pessoa, bom ou mal.
          Seu Leleco, de supetão, perguntou ao repórter:
          - O senhor lê o pensamento de todo mundo?
          O homem do além, meio encabulado, pego de surpresa respondeu:
          - Não. Nem sempre. Faço isso somente quando tenho a permissão do meu superior.
          Aproveitando a oportunidade seu Leleco perguntou:
          - Dói morrer ou a passagem dói muito mais?
          O repórter de São Pedro disse categoricamente:
          - Dói muito. Mas, triste mesmo é assistir ao sofrimento dos que ficam perfilados na rua do inferno, chorando, clamando perdão tardiamente... Essa é a pior dor, é dor infinita. A passagem é como uma viagem virtual, como um passeio... Ao despertar, vai conhecer a sua fila. "Ali começa o céu ou o inferno."
          Seu Leleco impressionado com essa resposta pensou: "Vou procurar uma igreja hoje mesmo. Vou buscar a palavra de Deus para ser a minha luz, o meu guia e minha salvação; antes que seja tarde demais.
          O repórter de São Pedro terminando o seu trabalho disse para o seu Leleco:
          - "O corpo morto ficará no esquecimento. Na sepultura não terá momento. Não fará mais obras, nem indústrias, nem ciência, nem coisa alguma, porque não será mais existência. Tornar-se-á pó... Sua sorte estará lançada. Sua alma é que será julgada conforme sua atitude durante toda a sua vida. Que os vivos sejam inteligentes, porque é melhor ser um cão vivo do que um leão morto."

E, falando isso, desapareceu.

Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 24/02/2009
Reeditado em 09/07/2009
Código do texto: T1454633

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3 comentários:

  1. Muito bom o texto. Parabéns ao autor.engraçado porém coerente.

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  2. Muito bom o texto. Parabéns ao autor.engraçado porém coerente.

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