sábado, 31 de janeiro de 2015

Promessa é dívida


Dois estudantes, amicíssimos, estavam quase reprovados de ano. No início do quarto bimestre, um disse para o outro:
- Hei, Eliezer! Vamos fazer uma promessa para Nossa Senhora Aparecida, para passarmos de ano? Se passarmos, vamos até ao cemitério, e lá, no cruzeirinho da igreja, vamos acender três velas cada um, topa?
Eliezer, desenganado, já havia feito promessas para vários santos: para ficar bonito, arrumar namorada, curar-se de uma hérnia, ganhar na loteria, e nunca teve sorte alguma, disse:
- Ah, Wilson, minha situação é tão ruim, estou em recuperação em todas as matérias. Não há Santa que dê jeito!
Eliezer, pensou melhor, refletiu, e disse:
- Por desencargo de consciência, topo!
Apertaram as mãos, bateram o martelo, selaram o pacto e estabeleceram metas para cumprirem a promessa se passassem mesmo de ano.
O engraçado foi que a partir daquele dia começaram a estudar como nunca e chegaram a contratar o colega Nariz de Tucano – o “CDF” da sala – para ensiná-los. A escola passou a ser a prioridade.  Enquanto os colegas se divertiam, jogavam bola; eles estudavam... Para os seus pais, professores e amigos, isso já era um milagre.
 Entretanto, mesmo com muito esforço ficaram para segunda época em Matemática Comercial  Financeira, matéria do professor Rude,  severo até no nome. Chegou a comentar numa rodinha de amigos que, se eles precisassem de um décimo para passar, seriam reprovados.
Desde o início do ano levaram o estudo na brincadeira; a reprova deles era dada como certa pelo diretor, professores e outros colegas de sala. Muitos desejavam vê-los reprovados.
Wilson e Eliezer, confiantes na Santa Maria Santíssima, passaram a ser frenquentadores assíduos da igreja. Fato que lhes rendeu uma bênção especial do padre Ângelo, aumentando ainda mais a fé dos estudantes.    Passar naquela prova final virou caso de honra. Era passar ou passar.
Muita gente, ao tomar conhecimento da promessa dos discentes, fez corrente de oração. As beatas fizeram procissão – rezaram a oração do estudante... E pediram à Virgem Santíssima que intercedesse em favor deles. Passou a ser o assunto preferido do povo.Virou bilhete de aposta que apontava a seguinte situação: 1) reprovarão; 2) passarão; 3) Eliezer – passará; 4) Wilson – passará; 5) Eliezer – reprovará; 6) Wilson – reprovará. Numa pesquisa encomendada por alguns apostadores mais afoitos, apontou que a maioria esmagadora apostara na reprova dos dois.
 O dia “D” havia chegado, era a última chance. Às sete horas da noite adentraram a sala, nervosos, e o professor Rude disse: “Vocês têm quarenta e cinco minutos para terminar a prova, nem um segundo a mais, nem a menos...”. Qualquer tentativa de comunicação ou cola, é zero!!!
  Terminada a prova saíram preocupados e um disse para o outro:
- Wilson, como você foi?
O amigo respondeu-lhe:
- Acho que passo, nem que seja na marra. E você?
- Cara, foi fácil demais, tiro dez! Pela primeira vez na minha vida, gostei de fazer uma prova.
O resultado sairia no dia seguinte, e seria exposto no mural dos estudantes. O professor ao entregar a nota das provas na secretaria disse:
- Nunca tinham conseguido sequer tirar um cinco numa prova, num teste, em todo o ano letivo. Porém nessa, a estrela de cada um brilhou... Foi um milagre mesmo. Não é que os danados conseguiram!... Eliezer precisava de oito e tirou nove e meio, Wilson precisava de nove e tirou nove. Milagre!
O professor Rude, ao sair da secretaria topou uma multidão de apostadores querendo saber o resultado antecipado, e disse:
- Amanhã vocês ficarão sabendo! A zebra foi grande!!
Teve aluno que gritou:
-Eu já sabia, tinha certeza que reprovariam.
Lá no fundo, os dois amigos rezavam e diziam:
- Se passarmos, amanhã mesmo nós pagaremos a promessa.
Naquela noite não dormiram, ficaram impacientes.. Os minutos se transformaram em infindáveis voltas preguiçosas no ponteiro do relógio. O resultado sairia às sete da noite.
As cinco já estavam lá, juntamente com uma multidão de curiosos, apostadores e interessados.
Exatamente na hora prevista saiu o resultado, e no empurra, empurra ouviu-se o grito:
- Eliezer! passamos!... É o milagre de Nossa Senhora! Obrigado, meu Deus! (...)
A felicidade dos aprovados, parentes e amigos que apostaram neles foi tamanha. A tristeza dos que perderam a aposta foi surpreendente.
A festa foi grande na casa do Wilson...
Teve gente que, ao saber da notícia, não acreditou. Foi tarde da noite conferir o resultado no mural da escola.
Passaram de ano porque investiram na sorte, estudaram mesmo.
E lá foram pagar a promessa naquela sexta-feira treze...
O céu estava sem estrelas. A escuridão parecia cobrir o mundo todo. O cemitério ficava longe da cidade. Os pagadores de promessa chegaram a pé no portão do campo-santo com as velas nas mãos, à meia-noite.
 De supetão, Eliezer tremeu, sentiu um frio nas costas, e o seu subconsciente denunciou: “Que mal fiz pra Deus? Que pecado cometi? Que lugar horroroso, é este? Que escuridão! Não consigo ver um palmo adiante do meu nariz”.
 Morto de medo, sussurrou no ouvido do amigo:
- Cara! Já passamos de ano mesmo, vamos dar o fora daqui, este lugar é horripilante... Estou me sentindo um rinoceronte, uma besta quadrada, um idiota. Mal consigo tirar os meus pés do chão. Vamos pra casa, algo me diz que isso não vai dar certo.
O Wilson, que tinha a fama de brigão, teimoso e cumpridor de seus deveres, disse:
- Não senhor! Fizemos uma promessa a Nossa Senhora Aparecida, ela cumpriu a sua parte. Agora, vamos cumprir a nossa.
Eliezer respondeu assustado:
- Ah, mano! Esse negócio de pagar promessa é bobagem!  Vamos tomar uma “geladinha”, pegar umas gatinhas e vamos chacoalhar os esqueletos no bailão do Mané Neco?  Isto aqui é programa de índio!  Estamos parecendo dois caciques pisando em terra sagrada e tentando invocar os espíritos para salvar a aldeia de alguma epidemia branca. Vamos cair fora?
Wilson, ao pôr a mão no portão, verificou que estava trancado com cadeado, e disse:
- Que droga! Não sei por que o coveiro tranca o portão do necrópole deste jeito.
Eliezer alegrou-se, e disse:
- Então, ta tudo certo! Se não tem jeito de adentrarmos, Nossa Senhora vai compreender nossa boa intenção; ta paga a bendita promessa!
Wilson, que nunca deixou de pagar uma promessa, disse:
- O inferno ta cheio de gente de boa intenção! Vamos pular o muro... Vamos pagar nossa dívida, custe o que custar! E você vai junto comigo, nem que eu tenha que levá-lo amarrado. Eu não vou pro inferno por causa do seu medo. Larga de ser “cagão!” Se não fosse a promessa, agora estaríamos reprovados, e os “sarristas” iriam gozar da nossa cara para sempre.
Sabendo da fama do amigo bravo, pensou: “Se eu correr, depois ele me pega, me dá uma surra e me traz aqui de qualquer jeito; se eu entrar aí, não sei se volto vivo... To lascado! Onde estava com a cabeça que fui fazer uma promessa dessas com esse louco!... Ah, meu Deus, por que passei de ano?! Sou uma besta!”
Wilson, já meio impaciente, nervoso, disse:
- Pegue aquele pau ali, encoste-o no muro, e vamos pulá-lo, agora mesmo!
Eliezer sentiu um frio na espinha, e pensou de relâmpago: “Além de tudo, tem olhos de águia, como conseguiu enxergar este pau?... Se eu ficar, o bicho pega, se correr, o bicho come...”.
 Resolveu atender o amigo. Pegou o toco, apoiou-o no muro, que não era tão alto assim e saltaram.  Nesse exato momento, todas as luzes da cidade e as  do cemitério apagaram-se de repente. Eliezer deu um grito, dizendo:
- Não falei! Não falei! Vamos sumir daqui, Wilson?
Corajoso que era, do signo de leão, teimoso feito uma mula, o amigo respondeu ao medroso:
- Se você repetir mais uma vez essa conversa mole, vou amarrá-lo numa catacumba e o deixarei até o raiar do dia.
O medroso respondeu imediatamente:
- Você não ta doido! Nem brinque com uma coisa dessas!  Estou passando mal, o mundo está rodando... Tudo está ficando escuro.
Seu amigo disse de repente:
- Claro que está escuro, sua besta. O céu está um breu, as luzes apagadas, é óbvia a escuridão!
Do local onde estavam até o cruzeirinho da igreja, tinham mais ou menos trezentos metros.  E, depois de tanta lengalenga, começaram a dar os primeiros passos rumo ao lugar prometido.
Os dois uniformizados de camisas brancas e calças azuis, pareciam fantasmas flutuantes. A cada tumba que passavam, Eliezer tremia.  E, mesmo naquele breu, enxergavam quase tudo à sua volta... Estavam atentos a qualquer barulhinho que fosse.
O morto de medo, disse:
- Deixa eu segurar na sua mão, senão eu vou desmaiar, estou passando mal, estou enxergando um montão de alma penada... Eu não devia ter feito esta promessa! Deixa?
Mas Wilson, macho pra chuchu, não admitia uma coisa dessas de jeito nenhum, e foi irredutível ao  dizer:
- Larga de ser “cagão”, cara!  Ta me estranhando! “Cada qual com o seu cada qual...” Isso é coisa de bichinha! De moleque catarrento... Que é isso, Eliezer, você é um homem ou um saco de batata?
O medroso respondeu sem pensar:
- Sou um saco podre, acho que to todo borrado mesmo...
Wilson quis rir, e disse baixinho:
- Não fale uma coisa dessas aqui. Estamos pisando em terra santa.
Eliezer disse:
- Estou de mal a pior... Minha barriga ronca e não é de fome, não!...
Dentro da capelinha do cemitério um velhinho cochilava  tranqüilamente... Jamais concordara em morar num asilo... Por isso, sem ter para onde ir, abrigava-se ali há muito tempo.
De repente, Eliezer tropeçou num túmulo e gritou:
- Valha meu Deus!
Wilson, num piscar de olhos, tapou-lhe a boca e disse:
- Cala-te, infeliz. Aqui é lugar sagrado. Não grite.
E, dessa vez, segurando na mão do Wilson, disse:
- Não me solta, por favor, eu lhe imploro!!
E continuaram a passos lentos, em busca do lugar sacrossanto.
O velhinho, seu Mané, levou um susto com o grito. Nunca ouvira nada igual antes. Ficou agoniado e o seu medo o fizera rezar, dizendo:
- Meu Deus, o que foi isso?  Não desampare um servo do Senhor.
 Levantou-se do chão, e, pela fresta da janela, olhou e viu um vulto indo em sua direção.
Eliezer, de súbito, deu uma parada cinematográfica, e disse no pé do ouvido do amigo:
- Somos dois idiotas mesmo...  Vamos acender as velas?!
Alegre com a idéia fascinante, pegou o fósforo. Entretanto, Wilson, mesmo um pouco tenso, lembrou-se que a promessa era acendê-las no cruzeirinho, e disse:
- Não faça isso. Se acendê-las, quebrará a promessa. Não acenda de maneira alguma. Se teimar, juro que eu abro uma catacumba e amarro você junto com o defunto.
Obedecendo, respondeu resmungando:
- Tudo bem, não fique zangado, foi só uma idéia boba.
Seu Mané, enxergando um batalhão de fantasma cada vez mais perto, pegou o rosário e começou a rezar o terço. Apavorado, pegou um lençol branco e se enrolou, tentando se proteger. Mas, de olho arregalado, pela fresta, imaginou pensando: Meu Deus, hoje é sexta-feira, treze, “dia das bruxas!” Dia de fazer despacho, macumba... É o meu dia de azar. Estão vindo me pegar...”
Os dois amigos estavam bem próximos da igrejinha.
Seu Mané, vendo aquela coisa se aproximando demais, sentiu seu coração saltar pela boca... Soltou um pum e barro pra todo lado... Seu medo foi tanto que nem se deu conta de sua “obra-prima...”.  Não pensou duas vezes: abriu a portinha da capela e saiu em disparada, gritando:
- Salve-me! Salve-me! Salve-me, Nossa Senhora da Medalha Milagrosa!
Os dois amigos, surpreendidos por aquela imagem aos berros, gritaram:
- Meu Deus! O que é isto?!  Minha Nossa Senhora Aparecida!!!
Escafedeu-se cada um para um lado.
Eliezer, o medroso, desabou logo ali perto da tumba do cientista maluco – que dizia ter feito o transplante de cérebros. Wilson escondeu-se detrás do túmulo do rico excêntrico – Zé Goteira...    Seu Mané, coitado! Caiu desfalecido sobre uma sepultura eremita.
 Wilson começou a rezar:
- Minha Nossa Senhora Aparecida, salve-nos, ó Virgem  Santíssima, honra de nossa terra, a quem rendemos  um culto de piedade e veneração; tem  piedade do meu amigo, não o deixe morrer. A Senhora sabe que só viemos pagar a nossa promessa. Imploro que nos abençoe. Rogai por nós, mãe do amor e da compaixão. Ouça as minhas preces.
Em seguida, como já tinha sido coroinha, rezou o terço em voz alta, e, de repente, caiu em sono profundo.
Ao amanhecer – o sol já mostrando a sua cara, como de costume – o coveiro veio zelar do cemitério. Ao se deparar com um corpo estendido no chão, levou um susto:
- O que é isto meu Deus?!
 Mesmo ele acostumado a lidar com defuntos, enterros e histórias assombrosas, teve medo, suas pernas bambearam, só não foi ao chão também, porque era muito corajoso, e tinha muita fé no seu Santo Emídio.  Tocou no corpo que se mexeu e resmungou estranhamente... O coveiro exclamou:
- Credo em cruz! Meu Santo Emídio, tende piedade!
O corpo acordou com o grito e, assustado, olhou aquele homem de branco e disse de supetão:
- Aqui é o céu? O Senhor é São Pedro?
O coveiro respondeu:
- Que São Pedro! O senhor ta doido? Quem diabos, é você?
O corpo, afobado, disse:
- Virgem Maria Santíssima! Acho que vim parar no inferno... E o senhor, então, só pode ser o chifrudo, belzebu, o cão! Valha-me Deus! Socorro! Socorro! Socorro!
O coveiro, apavorado, respondeu firmemente, dizendo:
- Cale a boca!...  Aqui não é o inferno. Nem sou o diabo... Aqui é o cemitério municipal da cidade, seu idiota, você não está reconhecendo?
Como se demarcasse o território, o corpo deu uma boa olhada para todos os lados, assombrado, e agora, preocupado e entristecido, disse, baixinho:
- Então, quem é o senhor?
E ele respondeu:
- Sou o coveiro.
O corpo levou as mãos à cabeça, desesperadamente, e falou:
- Então eu morri mesmo! O senhor veio me buscar para me enterrar, me sepultar. Valha meu Padim Ciço!!!
O coveiro foi enfático ao responder:
- Não, seu imbecil, você não ta morto! Morto não fala, não vê, não respira e nem discute com o coveiro... Quem é você, rapaz? O que está fazendo aqui? Quem é você?
O corpo respirou profundamente, e disse:
- Acho que sou o Eliezer... Quer dizer, sou eu mesmo... Sou estudante! Cadê o meu amigo, Wilson?
O coveiro quase foi à loucura, e disse:
- Amigo, que amigo? De quem você está falando?
Eliezer disse categoricamente:
- Do Wilson – o fotógrafo – aquele que tira retrato. Todo mundo o conhece. O senhor, não?
Ele respondeu já meio zangado:
- Claro que conheço, todo mundo nesta cidade abençoada o conhece. Eu também.
Eliezer, desconfiado de que o coveiro estava achando que era uma lorota, disse:
- Pois é, ele veio comigo. Quero saber cadê ele. Será que ele morreu?
O coveiro, não entendendo nada, disse:
- Morreu?! Morreu de quê?
Eliezer, o “cagão”, já ficando com medo do coveiro, por ter invadido o cemitério, disse:
- De susto! Ele é muito nervoso... Deve ter sofrido uma taquicardia, ontem, e bateu as botas! Bem que eu avisei que esse negócio de pagar promessa não ia dar certo. No entanto, ele é “teimoso feito uma mula.” Não me ouviu... Ele me forçou a entrar aqui, seu coveiro! Ele me fez pular o muro do cemitério para acender as velas e...
De repente, Eliezer viu, logo adiante, ao lado de uma tumba, um corpo estendido, e gritou:
- Olha lá! Olha lá, seu coveiro! Não lhe falei que ele veio comigo!
Correram até o corpo e, ao se aproximarem, Eliezer assustado, medroso, totalmente confuso, não se lembrava direito do que tinha acontecido – só aquele grito estava dentro do seu ouvido, disse:
- Esta coisa gorda e cagada não é o Wilson, não!
O coveiro quase foi a nocaute, e de cabelos em pé, dessa vez com muito medo também, tremendo, tocou naquela coisa enrolada, desenrolou-o como um raio, e descobriu que se tratava de um senhor idoso. Respirou, ganhou novo fôlego, e impostou a voz dizendo:
- Acorda, bode velho! Acorda! Acorda, cabra sem CPF!!
O velho, abrindo os olhos e vendo-os, quase morreu de raiva, e delirando ainda, disse:
- Será possível que nem no cemitério a gente pode descansar em paz?! Não amola!
O coveiro, irritado, deu-lhe um grito:
- Será que vou ter que chamar a polícia?!
O velho morria de medo de polícia... Despertou imediatamente, reconheceu o coveiro, e disse:
- Calma, não é preciso.  Já vou “deitar o cabelo”, agora mesmo.
O coveiro disse:
- Ah, não vai não. Antes quero saber o que o senhor faz aqui, podre desse jeito?
Ainda meio perturbado, respondeu-lhe:
- Sei lá, moço! Eu estava aqui, dormindo no meu cantinho, sossegado, ali na capelinha, quando de madrugada, na hora do despacho, vi um monte de fantasma querendo me pegar, saí correndo e... É tudo o que me lembro.
O coveiro baixou a cabeça reprovando toda essa história, não acreditando muito no que via e ouvia... Enquanto isso, o velho foi até a torneira e banhou-se.
O coveiro interpelou o velhinho, dizendo:
- Então o senhor é o fantasma famoso do cemitério...  Que vagueia por aqui toda noite? Seu safado! Seu velho caduco! Passei muitas noites em claro lhe procurando, infelizmente nunca consegui pegá-lo. Que coisa!..
O velho respondeu com autoridade:
- Calma aí...  “Devagar com o andor que o santo é de barro!” Respeite-me. Sou um velho sim, mas tenho idade para ser seu pai. Só vim dormir na capela porque não tenho casa. Tenho um monte de filhos, porém, a vida é assim: a gente deixa de comprar um pedaço de carne para educar um filho, para ajudá-lo a ser gente. Quando cresce, esquece de pai e mãe.
Minha mulher morreu há muito tempo, e eu vivo pelo mundo.
Minha mãe sempre dizia que uma mãe vale por cem filhos, mas, cem filhos não valem uma mãe.
Não gosto de asilo. Aquilo é coisa de quem está esperando a morte chegar. Eu ainda quero viver muito. Sou pobre de “marré de si.” Meu bolso há muito não vê um vintém, todavia, sou rico de saúde, gosto do viver.
Nunca assustei ninguém propositadamente. Alguns moleques que vieram aqui “cheirar...”, corri com eles... Foi assim que nasceu o boato do fantasma do cemitério.
O coveiro e o Eliezer choraram de tanto rir. Desvendaram o mistério do fantasma do cemitério casualmente.
Eliezer, ao levantar os seus olhos grandes e negros, avistou seu amigo mais adiante e gritou:
- Olha... olha lá! Agora é o meu amigo irmão Wilson, seu coveiro. Eu não lhe disse que ele veio comigo! Vamos, corre! Corre!
Ao chegarem lá, constataram que se tratava mesmo do colega do Eliezer. Seu Mané, ao vê-lo, gritou:
- Sangue de Cristo tem poder!
Wilson acordou meio abobado, e, assustado, disse:
- Eliezer, cadê as nossas velas?
- Estão aqui. – disse o amigo.
- Vamos pagar a nossa promessa!  – disse o Wilson.
Seu Mané e o coveiro ficaram amigos e seguiram os estudantes rumo ao cruzeirinho da igreja do cemitério. Acenderam as seis velas e oraram a Nossa Senhora Aparecida, agradecendo-a por terem passado de ano.
Depois foram à casa do coveiro, tomaram café, e os estudantes lhe contaram tudo o que havia acontecido e o porquê da promessa.
Seu Mané prometeu para o coveiro que nunca mais iria dormir na capelinha e procuraria um albergue ou outro lugar naquele dia mesmo.
O coveiro conta essa história para todo mundo até hoje.
A partir desse episódio os estudantes levaram a escola a sério. Passaram a fechar todas as matérias sempre no terceiro bimestre... Aprenderam a lição: Quem estuda, passa.
E, para todo mundo, Wilson alertava:
- Promessa é coisa séria. Só prometa uma que possa cumprir, porque, promessa é dívida.



 
Professor Osmar Fernandes
Enviado por Professor Osmar Fernandes em 28/02/2009
Reeditado em 09/05/2009
Código do texto: T1461365

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Um comentário:

  1. O coveiro e o Eliezer choraram de tanto rir. Desvendaram o mistério do fantasma do cemitério casualmente.
    Eliezer, ao levantar os seus olhos grandes e negros, avistou seu amigo mais adiante e gritou:
    - Olha... olha lá! Agora é o meu amigo irmão Wilson, seu coveiro. Eu não lhe disse que ele veio comigo! Vamos, corre! Corre!

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